O “ciclo fechado” do Lixo
Como o acordo Tupy e Vamos no Rio torna o biometano a nova fronteira para prefeituras
Por Redação, Portal Energia e Biogás
A assinatura do acordo entre a Tupy (TUPY3), via MWM, e a Vamos (VAMO3) para a entrega de 100 caminhões movidos a biometano no Rio de Janeiro não é apenas uma venda de frota; é a consolidação de um modelo de negócio que promete revolucionar a planilha de custos das prefeituras brasileiras. O projeto, que entrará em operação total no primeiro trimestre de 2026, inaugura em larga escala o conceito de "ciclo fechado" na limpeza urbana: o caminhão que recolhe o resíduo é abastecido pela energia gerada por esse mesmo resíduo.
A estratégia do "Lixo que Move o Lixo"
Para gestores municipais e especialistas em infraestrutura, o foco desta notícia ultrapassa a tecnologia embarcada. O ponto central é o aproveitamento da FORSU (Fração Orgânica dos Resíduos Sólidos Urbanos).
Ao transportar o lixo para aterros sanitários como Centro de Tratamento de Resíduos (CTR-Rio), em Seropédica, onde o biogás é capturado e purificado em biometano, as prefeituras deixam de ser meras clientes passivas da volatilidade do preço do diesel internacional. Elas passam a integrar um ecossistema onde o passivo ambiental (lixo) se torna ativo energético (biocombustível).
Por que isso é estratégico para o setor público?
Principais atributos:
- Blindagem Econômica: O biometano, produzido localmente, sofre menos oscilações cambiais que o diesel fóssil.
- Redução de OPEX: A queima mais limpa do gás reduz o desgaste das peças do motor, aumentando a vida útil da frota e diminuindo custos de manutenção.
- Silêncio Urbano: A redução de 20% no ruído dos motores MWM a gás permite operações noturnas em áreas residenciais e turísticas sem gerar reclamações de poluição sonora, um ativo político valioso para administrações municipais.
A engenharia por trás do negócio (TUPY3 e VAMO3)
A viabilidade técnica deste projeto de R$ 150 milhões repousa na sinergia entre a customização e a motorização. A Vamos, através de sua subsidiária BMB, não está apenas "vendendo caminhões"; está entregando uma solução de infraestrutura. A transformação dos veículos ocorre em Porto Real (RJ), onde o motor original a diesel é removido para dar lugar à tecnologia da MWM (Tupy).
Cristian Malevic, vice-presidente da Unidade de Negócios Energia & Descarbonização da Tupy, destaca que a calibração dos motores é ajustada especificamente para o ciclo de "anda e para" da coleta de lixo. Diferente do diesel, que perde eficiência em baixas rotações e marcha lenta, o motor a biometano calibrado pela MWM entrega torque imediato com queima estequiométrica, essencial para compactadores e poliguindastes.
O caso Comlurb: laboratório para o Brasil
A operação no Rio de Janeiro, envolvendo a Comlurb e a terceirizada Força Ambiental, serve como "prova de conceito" para outras metrópoles. A frota de 100 veículos evitará a emissão de material particulado em 99% e de CO2 em 90%.
Jorge Arraes, presidente da Comlurb, sinaliza que este é um caminho sem volta, indicando que futuros editais de licitação de limpeza urbana deverão privilegiar ou exigir frotas descarbonizadas. Isso cria uma pressão de mercado imediata sobre as concessionárias de limpeza urbana em todo o país: quem não dominar a operação com biometano perderá competitividade em licitações públicas.
Oportunidade para aterros e infraestrutura
Este movimento também pressiona o setor de saneamento. Aterros sanitários que apenas queimam biogás em flares (queimadores abertos) estão desperdiçando dinheiro. A demanda criada por frotas pesadas, como a da parceria Tupy-Vamos, justifica o investimento em plantas de purificação de biogás para biometano nos aterros.
O ciclo se fecha: a cidade produz o resíduo, a concessionária o coleta, o aterro o processa e devolve o combustível limpo para a frota rodar. O anúncio da Tupy e Vamos é o sinal de largada para que o biometano deixe de ser uma "alternativa exótica" e se torne o padrão ouro da mobilidade pesada urbana no Brasil.
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