No setor de resíduos, a agenda climática já saiu do papel

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Resíduos lideram a ação climática no Brasil: biometano transforma lixo em energia limpa, reduz emissões e impulsiona investimentos bilionários. Setor mostra que a descarbonização já é realidade prática e escalável.
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Foto: divulgação ABREMA
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Sustentabilidade e Clima

No setor de resíduos, a agenda climática já saiu do papel

Por Pedro Maranhão

As mudanças climáticas já são uma realidade para milhões de pessoas que sofrem com sucessivos recordes de calor, secas, inundações, nevascas e outros cenários antes cogitados apenas para um futuro distante. O Brasil vem reafirmando um papel central no debate climático global ao se colocar como ator internacional de articulação política, técnica e social em torno da transição para uma economia de baixo carbono.

Nos últimos anos, o debate climático global tem sido marcado por negociações complexas, interesses divergentes e pela busca de consensos possíveis. Alguns temas ficam nas discussões conceituais, ao passo que outros evidenciam a implementação prática que a agenda climática exige. Nesta última categoria o setor de resíduos sólidos assume posição especial.

Enquanto temas estruturantes da agenda climática seguem seu curso natural no plano diplomático, a gestão de resíduos urbanos tem demonstrado, na prática, como é possível avançar na descarbonização da economia. Um exemplo concreto é a articulação nacional em torno da produção e do uso do biometano a partir de resíduos sólidos urbanos, iniciativa assinada na COP de Belém que reúne Governo Federal, municípios e empresas privadas, com participação ativa da ABREMA - Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente.

Esse movimento simboliza a transição do discurso para a prática. Trata-se de um compromisso triplo, mensurável e alinhado a objetivos climáticos claros. Prefeituras assumem a meta de substituir frotas de transporte público por veículos movidos a combustível renovável, o Governo Federal estrutura instrumentos de estímulo à produção de biometano, e o setor privado projeta investimentos da ordem de R$ 8,5 bilhões, ao longo de cinco anos, para ampliar e implantar novas plantas de produção. A descarbonização deixa de ser promessa e passa a ser realidade.

Mais do que um projeto de energia limpa, essa iniciativa combate a emissão de metano proveniente da decomposição de resíduos orgânicos. Esse gás de efeito estufa é 28 vezes mais poluente que o dióxido de carbono e um dos mais influenciam nas mudanças climáticas. Ao capturá-lo e convertê-lo em um combustível limpo e renovável, um dos principais vetores do aquecimento global é neutralizado, ao mesmo tempo que cria uma alternativa economicamente viável aos combustíveis fósseis.

Os números ajudam a dimensionar esse potencial. Aterros sanitários licenciados no país produzem atualmente cerca de 18 milhões de metros cúbicos de biometano por mês, volume suficiente para abastecer 500 mil veículos mensalmente ou envasar 1,2 milhão de botijões de gás renovável. Isso equivale à captura de aproximadamente 310 mil toneladas de CO₂ equivalente por mês, impacto comparável ao plantio de 2,2 milhões de árvores no mesmo período.

Dessa forma, a gestão de resíduos sólidos assume um papel duplamente estratégico no enfrentamento da crise climática, ao transformar um passivo ambiental em um ativo energético. Além disso, gera empregos, contribui para a erradicação dos lixões, melhora indicadores de saúde pública e promove justiça ambiental nas cidades, colocando as pessoas no centro da ação climática.

Se ainda há impasses globais sobre o ritmo e a forma de superação dos combustíveis fósseis, a experiência brasileira no setor de resíduos mostra que soluções circulares e de baixo carbono já são tecnicamente viáveis, economicamente sustentáveis e prontas para ganhar escala. A sustentabilidade deixou de ser um exercício retórico ou um planejamento distante e passou a ocupar o centro das estratégias empresariais e das políticas públicas integradas.

Enquanto o mundo segue debatendo o “como” e o “quando” da transição energética, o setor de resíduos no Brasil já demonstra que é possível avançar agora, resolvendo problemas urbanos históricos, impulsionando a inovação e construindo um caminho concreto, mensurável e eficaz para uma economia menos dependente de combustíveis fósseis.

 

 

Sobre o autor:

Pedro Maranhão é Presidente da ABREMA (Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente).

 

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